Dinâmica Ambiental de Agrotóxicos Em Aplicação de Baixo Volume de Calda e Dose Concentrada

A evolução da agricultura e da produtividade por unidade de área esta diretamente relacionada com a melhoria das técnicas de controle de pragas, doenças, patógenos e plantas daninhas. O desenvolvimento de produtos agrotóxicos para as diversas demandas de controle auxiliou de forma decisiva para o sucesso da agricultura mundial. Os produtos agrotóxicos possuem muitas tecnologias para obter ou atingir a melhor performance de eficácia sobre alvo desejado, contudo a tecnologia de aplicação é o fator crucial para obtenção do controle do alvo.

Assim, a tecnologia de aplicação de agrotóxicos é fundamental para a colocação do produto em contato com o alvo a ser controlado, na concentração ideal para controle e com o mínimo de contaminação ambiental. Em muitos casos, a eficácia de controle de um determinado produto é questionável, mas antes de tudo, é fundamental avaliar como foi realizada a pulverização do produto, o tamanho de gotas, o tipo de ponta de aplicação, a distribuição sobre o alvo, o uso de adjuvantes, o volume de calda utilizado, dentre outros processos da tecnologia de aplicação, além dos fatores ambientais envolvidos no momento da pulverização. Nos últimos anos, a tecnologia de aplicação ganhou maior destaque no cenário do manejo agrícola, em virtude da intensificação dos processos de cultivo e uso das unidades produtivas. A necessidade de redução de volume de calda de aplicação e a adição dos produtos adjuvantes são debatidos em diversos setores da agricultura, especialmente para buscar alternativas para a diminuição do volume de água para a diluição dos produtos. Além disso, a diminuição do uso da água tem importância na busca pela sustentabilidade e redução da contaminação ambiental.

Recentemente, uma linha de trabalho buscando a redução de volume e aumento da concentração da dose por área aplicada tem ganhado força, especialmente com o surgimento de novas tecnologias de aplicação, como por exemplo a utilização de drones de aplicação, melhorias em pontas de aplicação e equipamentos de controle mais precisos de volumes aplicados.

Do ponto de vista de dinâmica ambiental de agrotóxicos, a redução do volume de calda aplicado é muito importante, pois além da redução do volume de água utilizada, tem-se redução dos efeitos diretos do volume de calda distribuídos por unidade de área. A redução do volume diminui sensivelmente os efeitos de evaporação e volatilização de agrotóxicos para a atmosfera. A dinâmica ambiental de poluentes atmosféricos, especialmente dos agrotóxicos ainda são poucos conhecidos ou elucidados, fazendo desta área da ecotoxicologia tenha poucos dados substantivos sobre os efeitos destes produtos em plantas, animais, solo ou água (Figura 1). Na atmosfera, os gases agrotóxicos podem degradados por reações fotoquímicas, incluindo degradação pela luz, mas os radicais ozônio (O3), hidroxila (OH) ou nitrato (NO3), podem estar presentes na atmosfera por vários dias. Para determinar estes possíveis efeitos é necessário utilizar técnicas de biomonitoramento, que consiste em utilizar organismos que possam demonstrar a qualidade ambiental, conhecidos como bioindicadores, que são organismos presentes naturalmente no ambiente que podem acumular um ou vários poluentes em seus tecidos (AL-Alam et al., 2019).

Na dinâmica em solos, o menor volume calda aplicada com agrotóxicos pode minimizar o efeito sobre os microrganismos de solo, organismos vertebrados e invertebrados e os processos de degradação físico, químico e biológico das moléculas aplicadas. Além disso, o menor volume contribui para a diminuição das perdas com evaporação, deriva e evapotranspiração, que reduzir significativamente o movimento de resíduo de produtos agrotóxicos para a atmosfera. Outro problema que pode diminuir é a retenção de resíduos de agrotóxicos nas camadas superficiais do solo (Wołejko et al., 2020) que podem causar efeitos nas culturas subsequentes (Della Vechia et al., 2021). A presença desses resíduos por tempo excedente ao período útil, ou seja, o período de controle do alvo, é indesejável, porque pode provocar injúrias às culturas em rotação/sucessão, pode atingir níveis que afetariam o desenvolvimento de microrganismos do solo e potencial na contaminação do lençol freático (Figura 1). Contudo, ainda é necessário desenvolver técnicas de avaliação ambiental de produtos concentrados, pois em casos de acidentes durante os processos de aplicação, a dinâmica de efeito pode ser muito mais agressiva e causar danos mais graves, mesmo que pontuais.

O ambiente aquático é o ecossistema mais sensível aos efeitos da aplicação de agrotóxicos, pois diversos fatores da dinâmica ambiental acarretam o transporte e a entrada de resíduos destes produtos neste ambiente (Chaudhry & Malik, 2017). Para o ambiente aquático, a aplicação de menores volumes de calda podem reduzir significativamente os processos de lixiviação e carregamento superficial de produtos pelo solo, reduzir a infiltração no solo, diminuir os efeitos diretos e indiretos para os organismos aquáticos, além de diminuir a presença de resíduos em águas superficiais ou no lençol freático (Figura 1).

 

Figura 1. Resumo da dinâmica ambiental dos agrotóxicos após aplicação para controle de pragas, doenças, patógenos e plantas daninhas nos sistemas de cultivos. Fonte: Claudinei da Cruz, 2022.

A redução dos riscos ambientais e de saúde humana devido o uso de agrotóxicos na agricultura está no topo da agenda de atores da cadeia de valor alimentar e formuladores de políticas em todo o mundo (Möhring et al., 2021). A tendência de redução de volume aplicado de agrotóxicos é um novo processo, em que as ferramentas de análises de risco e de saúde ambiental deverão ser implementadas, visando estabelecer novos padrões de efeitos adversos dos agrotóxicos, porém a redução do volume de água deve trazer redução substancial nos efeitos da dinâmica ambiental destes produtos após sua pulverização em áreas agrícolas e não-agrícolas. A redução de volume aplicado de água, além dos efeitos diretos na dinâmica ambiental de resíduos de produtos, também contribui com a diminuição das operações de aplicação, uso de equipamentos, operações nas áreas de cultivo que influenciam na redução dos custos do sistema de cultivo.

Desta forma, a aplicação de menor volume de calda por unidade de área, aliada a uma tecnologia de aplicação de qualidade, apesar dos desafios que ainda precisam ser superados, é um caminho para a melhoria de controle de pragas, doenças e plantas daninhas, com minimização dos possíveis efeitos ambientais da aplicação de agrotóxicos. O uso de dose concentrada, além de melhorar a performance de controle pode ser considerada um fator importante na interferência da dinâmica ambiental, devido a diminuição do efeito sobre os organismos não alvos da aplicação.

Referências
AL-Alam, J. Chbani, A. Faljoun, Z. Maurice Millet, M. The use of vegetation, bees, and snails as important tools for the biomonitoring of atmospheric pollution – a review. Environmental Science and Pollution Research, Published online, 2019.
Chaudhry, F.N. & Malik M.F. Factors affecting water pollution: A review. J. Ecosystem & Ecography. 7(1), 1000225, 2017.
Della Vechia1, J.F. Peres, L.R.S. Pâmela, P.C. Cruz, C. Determinação de plantas indicadoras de resíduos de bentazona, atrazina e clomazona no solo. Ciência e Cultura, 17, e211707, 2021.
Möhring, N. Finger, R. Kudsk, P. Vidensky, L. Schmitt, U. Nistrup Jørgensen, L. Ørum, J. E. 2021. Pesticide Load Indicator (R-Package).
Wołejko, E. Jabłońska-Trypuć, A.Wydro, U. Butarewicz, A. Łozowicka, B. Soil biological activity as an indicator of soil pollution with pesticides – A review. Applied Soil Ecology, 147, 103356, 2020.

Prof. Dr. Claudinei da Cruz, Laboratório de Ecotoxicologia e Eficácia dos Agrotóxicos, LEEA, do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos, Unifeb. e-mail: leeabarretos@gmail.com – (16) 99708-1694