Nematóides: os inimigos invisíveis da agricultura

Os nematóides são invertebrados microscópicos cilíndricos, pertencentes ao Filo Nematoda, e englobam indivíduos parasitas ou de vida livre, que vivem no solo úmido ou na água. Esses animais são importantes parasitos devido aos seus efeitos negativos em plantações, animais domésticos e seres humanos.

Os nematóides parasitos de plantas, chamados fitonematóides, alteram a morfologia das células vegetais e/ou causam necrose dos tecidos. O seu aparelho bucal é formado pelo estilete, capaz de extrair alimento de células vegetais. Por meio do estilete são capazes de perfurar a parede celular e injetar secreções enzimáticas no interior das células. Assim, o conteúdo celular sofre uma pré digestão e será sugado pelo estilete.

A presença desses minúsculos animais no solo acaba sendo imperceptível até causar danos nas culturas, observados atrás de reboleiras, que são grandes manchas amareladas em uma área cultivada. Essas reboleiras são um conjunto de plantas com folhas amareladas, cloróticas e/ou necróticas, de menor porte, por muitas vezes murchas e com menor produção. A grande maioria dos fitonematóides acometem as raízes das plantas, mas ocorre espécies que atacam a parte aérea.

Os nematóides podem ser olígafos ou polígafos, ou seja, parasitar uma planta específica ou parasitar uma ampla variedade de plantas, sem especificidade. Os olígafos compensam essa especificidade apresentando um maior tempo de sobrevivência no solo sem hospedeiro (Ex: Heterodera glycines, cisto da soja, até 8 anos) e os polígafos, devido a maior abundância de alimento apresenta um tempo de vida menor no solo sem planta hospedeira (Ex: Meloidogyne javanica, máximo 1 ano).

Além disso os fitonematóides podem ser endoparasitos sedentários, que penetram no sistema radicular e não retornam ao solo (Ex: Meloidogyne spp.); endoparasitos migradores, penetram nas raízes, locomovem-se, alimentam-se, e quando a raiz entra em decomposição, voltam ao solo para colonizar outra raiz (Ex: Pratylenchus spp.) ou ectoparasitas, não penetram no sistema radicular, apenas introduzem o estilete e se alimentam das células do tecido meristemático. Ex.: Xiphinema spp.

Os nematóides apresentam uma cutícula como revestimento, uma camada não celular, e que precisa ser trocada periodicamente até a fase adulta. Essa troca, chamada de muda, é necessária para propiciar o crescimento do animal e inicia-se dentro do ovo. Após o desenvolvimento embrionário forma a fase de juvenil 1 (J1) e através da 1ª muda, dentro do ovo, forma o juvenil 2, J2, que eclode do ovo e é a fase infectante da maioria dos fitonematóides. Uma vez no solo, pode infectar as raízes de uma ampla variedade de culturas, inclusive plantas daninhas. Dentro da célula hospedeira, o nematóide sofre mais mudas, se transformando em juvenil 3 (J3), juvenil 4 (J4) e adulto, com capacidade reprodutiva.

Os nematóides podem atacar uma planta hospedeira desde a germinação, mas os sintomas são mais visíveis na fase de florescimento por ser um período de alta demanda de água e nutrientes e a população de nematóides se encontra elevada nas raízes e esta perde a capacidade de suprir as necessidades da planta. Além disso os danos diretos ocasionados pela penetração, movimentação e alimentação, abrem portas de entrada e predispõem a planta à ocorrência de outras doenças, principalmente associadas a fungos de solo.

No campo o nematóide tem movimentação limitada, sendo que é disseminado por práticas agrícolas sendo os principais: implementos e máquinas, água de irrigação contaminada e mudas contaminadas.

Dentre os mais importantes que causam grandes prejuízos nas culturas agrícolas está o gênero Meloidogyne spp., conhecido como nematóide das galhas, com mais de 80 espécies conhecidas. O ciclo de vida é de quatro semanas e uma fêmea produz em média 500 ovos. Devido ao crescimento desordenado das células, observa-se nodosidades nas raízes, chamadas de galhas, sintoma característico da infestação por este nematóide.

Outro nematóide importante é o Pratylenchus spp., conhecido como nematóide das lesões radiculares, causando necrose e podridão nas raízes. É um endoparasita migrador que causa danos mecânicos às raízes durante a alimentação e movimentação no interior dos tecidos. Além disso, apresenta ação espoliadora, pela retirada do conteúdo citoplasmático, e danos por ação tóxica, pela injeção de substâncias no córtex radicular.

No caso da soja, a Heterodera glycines, conhecido como o cisto da soja, é olígafo. É semiendoparasita sedentário, cujo ciclo de vida é semelhante ao descrito para Meloidogyne, e completa-se em torno de três semanas. A rotação de cultivares resistentes de soja alternada com milho tem proporcionado redução da população desse nematóide abaixo do nível de dano.

As populações de fitonematóides que coexistem no solo, flutuam sob a dependência de fatores bióticos e abióticos que respondem pela quantidade e pela qualidade das populações. A duração do ciclo de vida e distribuição populacional no solo são geridos principalmente pela temperatura e umidade, além da planta hospedeira. É necessário estabelecer um rigoroso manejo do solo com análise frequente para se evitar grandes perdas econômicas ao longo das safras agrícolas.

 

Matéria escrita por:

Dra. Silvia Patrícia Carraschi de Oliveira
http://lattes.cnpq.br/7822148466800079
Bióloga Doutora em Aquicultura pelo Caunesp e Pós Doc pelo Instituto de Pesca (SP)
Docente da Engenharia Agronômica da UNIARA, Araraquara (SP)